terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

A 365 DEGRAUS DO FIM



Dica de Leitura:

Visão geral do livro

"Saúde mental dos jovens: uma discussão super necessária para os dias atuais!" Thaís Alessandra

Alerta de gatilho: reflexões sobre saúde mental de jovens e adolescentes + o suicídio como situação de saúde pública + reflexões sobre os traumas acumulados em uma vida + (in)capacidade de superar + cura e libertação





 

SINOPSE

A 365 degraus do fim


Sabrina chegou aos 17 anos e achou que era o bastante. Viver nunca fez sentido mesmo, ela tinha insistido o suficiente.

Abandonada, negligenciada, preterida, fora do padrão, doente, sem amigos, sem futuro. O prédio grande e tão abandonado quanto ela pareceu um bom cenário para o fim. Ao menos isso ela escolheria.

Toda dor importa.
Nenhuma dor deve ser desprezada.
Às vezes, a única atitude necessária é olhar para dentro.
A verdade costuma ter três lados: o meu, o seu e o da plateia que observa de fora.

Sabrina pode estar sentada ao seu lado no metrô. Pode estar na sua rua, na sua vizinhança. Sabrina pode morar na sua casa e você não sabe o que ela sente. Ou pensa em fazer. Preste atenção aos sinais, ela era apenas uma adolescente. Antes tinha sido uma criança, nem mudou tanto assim.

Quantos jovens guardam bem fundo suas dores para que o mundo não os questione?

Não enxergar uma saída não significa que ela não exista.

Fale com alguém, Sabrina. Não suba o último degrau.


Autora: Adriana C. A. Figueiredo
Instagram: @estreiademae



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A obra está concorrendo ao prêmio AMAZON de Literatura Jovem.






quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

BECOS DA MEMÓRIA & QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA

Percepções
 de uma leitora-escritora sobre o "ponto de encontro" dessas duas obras literárias

Por Thaís Alessandra



Embora o contexto da favela narrada por Conceição Evaristo seja provavelmente  da década de oitenta, pois Becos da Memória ficou "engavetado" por vinte anos, tendo a sua 3ª edição publicada em 2006, alguns elementos dessa narrativa, a meu ver remetem ao QUARTO DE DESPEJO de Carolina Maria de Jesus: 
a torneira onde os moradores desciam pra pegar água,  a vendinha onde todos compravam seus alimentos, entre outras coisas; além da miséria, do descaso e abandono das autoridades com os favelados. Além disso, Conceição Evaristo relata as escrevivências de suas memórias, misturadas a ficção. Já Carolina Maria de Jesus, relata personagens e fatos reais do contexto periférico dos anos cinquenta em que vivia, uma época sem assistência social nenhuma, aonde permeava a miséria e a consequente invisibilidade social do pobre. Em ambas as narrativas, há uma favela que não existe mais, pois atualmente como a própria Conceição Evaristo disse "hoje as favelas produzem outras narrativas, outros testemunhos, e inspiram outras ficções. 

A meu ver, é notório a inspiração de Conceição Evaristo na obra Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus, talvez seja a condição de ser mulher preta que as "atravessem" também na escrita. Mas, o fato é que vi certa semelhança nessas duas obras literárias. Em BECOS DA MEMÓRIA, não observei um protagonista na obra, parece que todos têm o seu papel principal, Vó Rita, Maria-Nova, Maria-Velha, Tio Totó, Cidinha Cidoca, Bondade, entre outros personagens, todos assumem o papel principal, mas "nenhuma narrativa é mentira, mas também não é verdade", segundo Conceição Evaristo. Já na obra QUARTO DE DESPEJO, o protagonismo é da autora que faz da sua obra a sua biografia de vida e relata com maestria o contexto do dia a dia da sua favela, descrevendo em detalhes todo o contexto periférico dos anos cinquenta, sem assistência social, completamente miserável e a margem, ao qual vivia a autora, que tinha a fome como a protagonista da sua obra, a meu ver. 

As duas obras narram de forma divergente a cultura nas periferias. Interessante observar o quanto BECOS DA MEMÓRIA traz a noção de pertencimento, identidade e comunidade dos moradores da favela que se sentem ameaçados e sem saber para onde vão mediante a ameaça de desmanche da favela que "expulsam moradores miseráveis para lugares longínquos em que a vida será, certamente, ainda mais difícil" (Conceição Evaristo/Becos da Memória, p. 195). O que me faz pensar que, expulsando eles da favela seria uma forma da sociedade mostrar o quanto eles não podem se aglomerar para construir a sua própria cultura, habitar e ocupar a cidade; e ao mesmo tempo deslocando eles feito animais para lugares onde eles perderão a referência da comunidade e a própria identidade que eles construíram enquanto vivência comunitária com os moradores entre si. 

O fato é que para BECOS DA MEMÓRIA traz um pesar dos moradores com o desmanche da favela, e em QUARTO DE DESPEJO o maior sonho de Carolina Maria de Jesus era sair daquele ambiente que a fazia tanto sofrer. A favela para Carolina Maria de Jesus não era nada romantizada, pois a autora não tinha identificação com os moradores do seu beco, ela parece usar a sua obra como uma espécie de denuncia contra aqueles que perseguiam os seus filhos dentro da sua própria comunidade, além de relatar a sua insatisfação com a fome, com a sujeira, com a miséria, com o descaso político que eles sofriam; há também o relato da autora sobre as crianças terem acesso a todo tipo de coisas que elas não deveriam experimentar nessa fase, como brigas de casal que pareciam relatar violência doméstica, mulheres nuas sendo vistas por eles ao saírem de seus barracos para fugirem das agressões de seus companheiro, entre outros relatos. 

A favela narrada por QUARTO DE DESPEJO também apresenta  cultura, sessões de cinema comunitário, músicas na igreja e outros relatos da cultura local; BECOS DA MEMÓRIA também relata a cultura na favela, mas a autora também menciona a ligação histórica da senzala-favela através do personagem Tio Totó que veio para a favela descendente de pais escravizados. 




Há muitas denuncias implícitas nessas duas obras, que deixa explícito a "herança da escravidão" por meio de um Brasil cruel e escravocrata, que  dá aos favelados condições subalternas de vida ao ocuparem espaços na cidade, saindo de um Brasil colonizado.




sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

A autoestima dos sapos

Eu prefiro ser rainha do que princesa! Mas, enfim... bora discutir sobre a autoestima de alguns sapos que a gente encontra por aí. É impressionante! E pior que se a gente não estiver com a nossa autoestima fortalecida , a gente cai na conversa do sapo e adoece emocionalmente. 


Embora eu não acompanhe o Big Brother, eu acompanho as redes sociais, e essa discussão me fez enxergar muita coisa que nós mulheres enfrentamos nessa sociedade estruturalmente machista: como a nossa autoestima é afetada pelos padrões estabelecidos, e a maioria dos homens, não importa o "qual sapo sejam", têm a autoestima mais fortalecida que a nossa. E o quanto isso "dá licença" para eles usarem esses padrões sociais e machistas para detonaram ainda mais a nossa autoestima.


Eu mesma já encontrei vários sapos que tentaram abaixar a minha autoestima:


"O efeito Cinderela acabou?" (fala desses sapos quando passei pela transição capilar)


"Se você engordar mais eu termino com você" (fala de outro sapo que me relacionei por anos, e tive até que optar pela minha saúde mental para não enloquecer ao lado "desse sapo").

Imagino que várias mulheres lindas, inteligentes, criativas, entre outras qualidades,  tenham sido intoxicadas por "um sapo" um dia. Eu não sei aonde eles arrumam tanta autoestima, afinal, são sapos.




Texto: Thaís Alessandra

Ilustração Desenhos do Nando

Texto autoral de Thaís Alessandra (@thais.alessandra_). *Não divulgue sem mencionar os créditos! Sujeito as penas da Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais)*

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Ponciá Vicêncio. Impressões e sensações a partir dessa leitura.

     Ponciá Vicêncio era de uma vila onde só tinha parentes que "formavam familiares entre si". Eram todos Vicêncios. Herança escravocrata que a vila Vicêncio deixou. 

    O que me impressiona nessa obra é a semelhança com a minha história e a de muitos afro-brasileiros, que têm que sair das suas cidades interioranas para a cidade grande (capital) em busca de uma nova história, uma nova vida, ou em busca de uma "ilusão" que as coisas irão melhorar na capital. E assim, muitos deixam as suas casas, cansados dos coronéis que enriquecem em meio ao trabalho árduo na lavoura, como Ponciá cansou de ver os seus, e inclusive o seu pai que perdeu a vida na lavoura para enriquecer um coronel da vila Vicêncio; soube também do seu avô que enlouqueceu a ponto de matar a própria mulher no desespero de não querer mais aquela vida miserável para si. Ponciá cansou de ver, viver e ouvir essas histórias em sua vila. O seu avô partiu (morreu) quando ela era apenas uma menina, criança de colo, e ela havia herdado uma herança dele, só revelada no final, desfecho surpreendente dessa obra.    Ponciá também não conseguia sobreviver do barro, em sua vila; barro esse que ela ajudava a mãe criativamente a moldar para transformá-lo em arte, miniaturas e objetos criativos. Então, devido a tudo isso, ela decidiu partir aos dezenove anos, pensando em voltar assim que ela se estruturasse financeiramente para dar uma vida melhor a sua mãe e ao seu irmão mais novo, o Luandi. 

    Ponciá sabia ler, aprendeu com os missionários em sua vila. Ela achava que isso seria o suficiente para se dar bem na cidade grande. Chegando de trem na cidade grande, deixou para trás seu irmão, a mãe e tudo o que ela amava. Virou pedinte na escadaria de uma igreja, onde ela se "hospedou" em uma marquise, e desesperada por uma oportunidade de trabalho ao abordar uma senhora nessa igreja, conseguiu "a tal sonhada oportunidade naquela cidade", ela se tornou doméstica em uma casa de família. E assim, ela se sustentou.

    Com o tempo, Ponciá foi ficando apática, "sem vida", e em suas lembranças tentava trazer a mãe e o irmão para perto de si; até que chegou a retornar a sua vila, mas não viu os seus, só conseguiu recuperar o seu avô-barro que ela moldou em sua infância. Foi vítima de violência doméstica na cidade grande, e ela apanhava do marido, o que a fez perder a vivacidade aos poucos, pois devido a tanto sofrimento, ela ficava parada as vezes, apática, sem conseguir se mover e olhando para o nada.

    Mal sabia ela que o seu irmão a procurava, e na tentativa de melhorar a própria vida, ele também foi para a cidade grande depois de Ponciá. Luandi chegou a dormir  na rua e foi encontrado por um soldado que o deu abrigo em uma delegacia, onde ele cuidava da limpeza do local. Ele queria obcecadamente ser um soldado e achava que se aprendesse a ler, conseguiria essa oportunidade. Depois de um tempo, Luandi Vicêncio também regressou até a vila Vicêncio em busca de notícias da mãe e da irmã Ponciá. Ele retornou com uma roupa velha de soldado , que conseguiu emprestado do amigo Nestor (soldado). Luandi se sentia importante com aquela roupa e queria que a sua vila o visse assim. Chegando lá, ele não encontrou sua irmã e muito menos a sua mãe. Mas, percebeu que elas estavam vivas, pois a irmã deixou um sinal da sua existência ao "pegar o avô-barro em um baú velho que estava em sua antiga casa; só podia ser ela, ninguém mais curtia essa lembrança". Então, Luandi teve notícias que elas estavam vivas. 

Algumas impressões e sensações a partir dessa leitura:

    Outra reflexão que me atravessa nessa obra são as oportunidades concedidas aos negros da roça que vão para a cidade grande.

     O umbigo dos irmãos enterrado na terra (vila Vicêncio) em que Ponciá e Luandi nasceram, representa espiritualidade, identificação e identidade com a terra em que eles nasceram, e que eles foram obrigados a abandonar em busca de um sustento na cidade para fugir do coronelismo, que eles pensavam estar somente naquela vila. Mas, Ponciá acabou se tornando empregada doméstica; uma moça extremamente criativa e cheia de sonhos que se perdeu ai. E o seu irmão Luandi, que se tornou agente de limpeza de uma delegacia. Como eles iriam ajudar os seus? Suponho pelo desenrolar dessa obra que ganhavam pouco nesses trabalhos que os foram concedidos na cidade grande. Além disso, a meu ver, parece só mudar os coronéis, pois se na vila Vicêncio eram eles quem enriqueciam as custas do povo que cada vez mais pobres ficavam apesar do trabalho escravo. Na cidade grande, não me pareceu muito diferente disso. Herança de uma sociedade escravocrata.

    A capacidade de delinear a dualidade dos personagens também me impressionou bastante no desenrolar dessa história, a exemplo do avô de Ponciá que matou a sua avó antes que ela a conhecesse, em um gesto de desespero e loucura devido a miséria de sua vida, por não aguentar mais ser explorado pelo coronelismo, herança escravocrata que os Vicêncios deixará em seu povoado-vila. Mas, ele também era assassino. O que faz dele uma espécie de vítima-vilão. E assim, há dualidade no companheiro de Ponciá também, que também carrega em sua identidade uma vítima-vilão, pois ele agridia e espancava a mulher, e ao mesmo tempo  sofria da solidão em uma cidade grande junto dela.

    A herança que Ponciá recebeu de seu avô também se destaca nessa obra, pois não é algo comum. É uma herança de personalidade; ela herdou o choro-sorriso, a loucura dele e o vazio que acumulou com o sofrimento vivido. Ela havia perdido sete filhos, se perdeu da mãe e do irmão também em busca de uma melhor oportunidade na cidade grande.

    O final também me surpreendeu bastante, o reencontro da mãe com os seus filhos, Ponciá e Luandi. Além disso, Luandi descobre que o seu sonho de ser soldado não era mais tão importante ao se deparar com a irmã tão "perdida de si, com a herança que o seu avô deixou para ela: o vazio, o jeito de se portar e a mente perdia no tempo.    Outro desfecho surpreendente é quando a mãe descreve que Ponciá era filha emprestada para ela, pois ela descobriu isso quando a menina chorou no seu ventre, e ela se acalmava no rio. Me parece que a trama também se desvenda com a espiritualidade ali presente. A meu ver, parece que a autora descreve uma filha das águas, filha de Oxum.    Outra personagem me desperta o foco na espiritualidade: a velha Nêngua Kainda, uma espécie de deusa-maternal, uma entidade conselheira mais velha que habitava na vila Vicêncio, e que acertava as suas previsões e todos a ouviam. Diante disso, a meu ver a obra retrata a espiritualidade da ancestralidade negra, como uma espécie de outra personagem para desvendar essa trama. Um dos romances mais lindos que li e "me tomou os olhos" por diversas vezes. 

     Ponciá Vicêncio - primeiro romance publicado de Conceição Evaristo.

Por Thaís Alessandra

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Ano, novo?

Ano, novo?

A divisão do tempo 'passado-presente-futuro' é uma ilusão que parece real.

O tempo é continuidade e extensão do ontem.

Extensão do 'ontem-ano'.

A felicidade imposta de celebrar o efêmero dessa 'passagem-ilusão-real' faz o invisível social obrigatoriamente sorrir diante da promessa de um ano melhor, pois se entristecer é proibido, afinal, o ano é "novo".

Assim vários anos se repetem de fome, descaso social e político, desemprego, e no final, o sorriso imposto da festa de um ano novo.


 Poesia autoral de Thaís Alessandra (@thais.alessandra_)*Não divulgue sem mencionar os créditos! Sujeito as penas da Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais)*

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Ancestralidade

#poemaautoral✍ por @thais.alessandra_

A ancestralidade é viva! Transcende e perpassa em nós como um rio que desagua suas memórias da nascente ao mar.


Falo por todos aqueles que vieram antes, 

que permanecem em minhas memórias ancestrais, 

em meus poros, 

em meu ventre,

e no meu "futuro-presente".


Em cada palavra escrita ou arte expressada, 

é como se abrissem um portal do tempo a me guiar.

Sinto o pulso cósmico da minha identidade ancestral a me impulsionar.


Falo por todos aqueles que vieram antes, 

que permanecem em minhas memórias ancestrais, 

em meus poros, 

em meu ventre,

e no meu "futuro-presente".


A ancestralidade é viva!

 Aqueles que foram, são presentes.


#repost da imagem: Facebook RepNegraLivramento

Poesia autoral de Thaís Alessandra (@thais.alessandra_). *Não divulgue sem mencionar os créditos! Sujeito as penas da Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais)*

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

INSUBMISSAS

Queremos SER notadas,

Desejadas,

Amadas,

E até cortejada. Mas, nunca, assediadas!


Queremos ser ouvidas na velocidade da LUZ!

E, não queremos SER homens para sermos ouvidas!


Que o seu elogio não silencie o nosso intelecto,

invisibilizando a nossa potência para sermos belas aos seus olhos.


Chegue bem de mansinho,

porque aqui além de um par de peitos e bunda, TEM CÉREBRO!

SOMOS INSUBMISSAS!



Poesia autoral de Thaís Alessandra (@thais.alessandra_), divulgada na coletânea Diversidade Poética - organizada por @marialuizabrasilescritora e @lupoetizando

Não divulgue sem mencionar os créditos! Sujeito as penas da Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais)



quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO & FUTURO ANCESTRAL - de AILTON KRENAK

 

As sensações que tive ao ler IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO foi a de "abraçar a perspectiva do autor" que critica o conceito de humanidade vigente, aonde o homem se percebe como algo separado da natureza, além de nos provocar a respeito dos "ambientes artificiais" que estamos reservando para as futuras gerações viverem como se fossem uma lembrança do que existiu na terra. O autor ainda nos provoca se é esse o ambiente que as futuras gerações gostariam de habitar. Para krenak, devemos deixar um rio intacto para as sete gerações futuras, mas "usamos o rio para joga-lo fora depois", pois nos entendemos como algo separado dele.

Nessa obra, o autor ainda menciona que o conceito de humanidade está fadado ao fracasso, porque o homem é uno com a natureza, mas se percebe como algo distante dela, como se o meio ambiente fosse algo separado de nós, como se fosse uma disciplina acadêmica. 

Krenak ainda afirma que não somos os únicos seres a ter uma personalidade própria ou um estilo de vida, pois até uma pedra ou um rio que é um ancestral nosso, e segundo o autor ele é nosso avô, pois está aqui bem antes de nós, têm personalidade própria. 


Já a obra FUTURO ANCESTRAL, nos traz uma perspectiva muito interessante sobre os rios que estão aqui antes de nós, são nossos ancestrais e são vivos, mas estão sendo destruídos para construção de hidrelétricas e barragens que mudam o curso natural deles para que se estabeleçam as cidades.

O autor também nos provoca várias reflexões sobre as cidades, que são construídas segundo a lógica do capitalismo, pois se mantém pelo padrão vigente do sanitarismo urbano e extermina tudo aquilo que não é considerado limpo, "o ideal é comprar uma batata limpa no supermercado", pois a terra representa sujeira, "quando foi que a terra virou sujeira?", questiona o Krenak nessa obra.

Além disso, o capitalismo e as cidades de acordo com o autor, se mantém pela lógica da pobreza, pois tira-se o homem do campo ou o indígena do seu habitat natural, que os permitia pescar, plantar e caçar livremente e os colocam em periferias ou ambientes subalternizados com restrições alimentares e outros acessos limitados.

A obra também nos faz refletir sobre a educação formal que formata a criança, ao invés de deixá-la com o pensamento livre para criar novas perspectivas. Segundo Krenak nascemos prontos, com a nossa própria identidade, mas somos moldados pela educação formal, e o " mistério indígena, que passa de geração em geração é colocar o coração das crianças no ritmo da terra".

Recomendo a leitura de ambas as obras para descolonizar o pensamento!
Por Thaís Alessandra

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Das Cinzas da Senzala, O Levante.

Percepções pessoais e sensações sobre a obra de Adriana Santana, "Das Cinzas da Senzala, O Levante":


O romance Úrsula de Maria Firmina dos Reis foi o primeiro romance a me afetar dentro dessa temática, pois trazia a óptica dessa autora que viveu no século XIX e deu voz as dores dos negros escravizados por meio da sua obra, em uma época em que eles não tinham voz.  Maria Firmina dos Reis me fez sentir, mais do que compreender, sentir as  próprias vivências de desumanização que essas pessoas tragas a força da África para o Brasil viveram ao serem escravizadas em terras "além mar", mas segundo o "olhar deles" e não como foi contado para nós através da história. 


Em analogia a esse grande romance do século XIX, apresento a obra "Das Cinzas da Senzala, O Levante", romance premiado em 1o. Lugar - Prêmio Maria Firmina de Literatura - Novos Autores 2021, que a meu ver também (des)silencia aqueles que não tinham voz naquela época. Além disso, todos os elementos da cultura afro-brasileira que foram descritos nessa obra foram relatados com tanta maestria, quase que de forma poética, emocionando "a leitora que se questiona se aconteceu mesmo o que está sendo narrado na obra". 

 
Do início ao fim, a gente sente o levante acontecer, e a esperteza da guerreira Njinga, do Pai João e de todos os negros da senzala que usavam a língua nativa para se protegerem, pois só eles entendiam aquela língua que os brancos da Casa Grande não compreendiam, e como eles eram constantemente vigiados, a língua era uma forma de comunicação para eles seguirem rumo a liberdade sem serem percebidos.

Impressiona-me nessa obra a ligação da menina guerreira Njinga com o Pai João, que ultrapassa a morte, pois ele sempre a guiava e aparecia para ela em diversos momentos. A espiritualidade aparece na obra quase que como um outro personagem, sendo temida pelos da Casa Grande, que tinham muito medo desse lado dos negros escravizados, sendo atribuída por eles como feitiçaria. Mas, ela era também uma forma de proteção, em diversos sentidos, e por causa desse medo dos brancos, o Pai João foi ouvido pelo Jerônimo, personagem que confesso ter tomado ódio no decorrer da obra, "ôh, sinhozim odioso!".

A ginga, a língua, os negros da terra, a espiritualidade, a lua que separava o tempo para que o levante acontecesse; o assobio que conduzia a Njinga a mata, direcionando a menina em direção aquele som até encontrar a sua mãe; e os cânticos introduzidos quando algum personagem negro "atravessava o rio (morria)", tudo tem poesia nessa obra.

Além da obra inteira, dois trechos me marcaram bastante: quando Njinga tem que raspar as suas tranças, que traziam memórias do Pai João que ao trança-la contava histórias. Mas, a trança foi raspada para que ela fosse marcada como escrava do Jerônimo. O segundo trecho, foi quando a menina nasce e a mãe Benedita manda que ela beba o leite rápido porque iria ser dado a menina branca, o que imagino ter sido muito difícil para a maioria das mães pretas daquela época.

Contaram para Njinga que sua mãe Benedita foi morta no tronco, e a garota retoma o contato após voltar para a Casa Grande e descobre que sua mãe estava viva na mata junto aos negros da terra, pois teve que se esconder por lá durante anos para sobreviver.

O final nos surpreende ainda mais, leiam a obra e descubram quando o canto da liberdade foi entoado entre os negros da senzala.


Resenha feita pelas sensações vivenciadas por mim enquanto leitora dessa obra.

Thaís Alessandra




domingo, 22 de outubro de 2023

Quarto de Despejo: diário de uma favelada/Carolina Maria de Jesus

 OBRA:

Quarto de Despejo: diário de uma favelada/Carolina Maria de Jesus; ilustrações de No Martins. -- 1ed. -- São Paulo: Átila, 2020. 264 p. Edição comemorativa.


PERCEPÇÕES PESSOAIS SOBRE ESSA OBRA:

O que me impressiona aqui é a fome como protagonista da sua obra, e a saúde mental afetada por essa "protagonista que rouba a cena sem ser convidada". Por diversas vezes, a autora menciona que tinha vontade de suicidar-se e viu diversos favelados passarem por esse desfecho:



"Ela disse-me que já está com nojo da vida.  Que não vê a hora de morrer.

Ouvi seus lamentos em silêncio e disse-lhe:

- Nós já estamos predestinadas a morrermos de fome!". PG 132

Já a autora padece desse mesmo mal:

"(...) Hoje acordei não temos nada pra comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó.  Eles estão cheios de vida. Quem vive, precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?". PG 161

(...)



Essa obra a meu ver é atemporal, e nos convida a refletir sobre a miséria e como ela afeta a saúde mental dos que estão à margem ainda nos dias atuais. ..


A autora em alguns trechos da obra se deprime e em "outros ela canta", canta principalmente quando a sua panela fica cheia e pode em raros momentos "matar à fome" dos seus filhos.


A minha impressão como escritora e artista múltipla é que Carolina de Jesus só não enlouqueceu ou morreu de fome porque "a escrita a alimentava".

FICA A REFLEXÃO:

Será que o Brasil se preparou mesmo para "libertar os seus escravos" ou apenas incutiu-lhes condições semelhantes após a abolição?

Como vamos acabar com a violência, se os que estão à margem vivem miseráveis, e irritados devido aos efeitos colaterais da fome.

Será que o Estado cuida da saúde mental dos (in)visíveis sociais, e quer mesmo os guardar e os proteger enquanto cidadãos de direitos?


Poderia expor diversas afetações pessoais sobre essa obra, entre elas:
 "ter uma ideia fixa sobre a fome, talvez seja a maior forma de nos matar", pois falar e pensar somente sobre isso tirou o tempo precioso da autora com os seus filhos e com a sua própria literatura.


A favela também escreve!

Sigo apaixonada pela literatura!


Indicação de 📚 leitura

QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA, de Carolina Maria de Jesus #carolinadejesus 


Provocações:

Será que temos que ter o melhor português e estarmos vinculados a uma instituição acadêmica para sermos intelectuais?

Será que o conhecimento acadêmico é melhor que a sabedoria popular? 

Por que uma obra best seller foi considerada durante anos como uma literatura inferior?


"Eu disse para a Dona Maria que ia para a televisão.  Que estava tão nervosa e apreensiva. As pessoas que estavam no bonde olhavam-me e perguntavam-me: é a senhora quem escreve?

Sou e.

- Eu ouvi falar.

Ela é a escritora vira-lata, disse a Dona Maria mãe do Diogo. Contei-lhes que um dia uma jovem bem vestida vinha na minha frente, uma senhora disse:

- Olha a escritora!

O outro ajeitou a gravata e olhou a loira. Assim que eu passei fui apresentada.

- Ela olhou-me e disse-me:

- É isto?

E olhou-me com cara de nojo. Sorri, achando graça.

Os passageiros sorriram. E repetiam. Escritora vira-lata" (PERPÉTUA, 2000, p. 332).


Fica a dica de leitura! 📚 

Por Thaís Alessandra/@thais.alessandra_

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

CULPA


 

Sinto algo estranho, porque não é meu!

Parece que abriram o meu peito e rasgaram à força.

 

Tentaram colocar em meu peito o sentimento de ser diferente, 

uma agonia por SER mulher e não SER mãe,

uma agonia por SER mulher e parir obras de arte ao invés de parir filhos.

 

Tentaram me roubar o sorriso! E, por alguns momentos o travei, pois sentia culpa de SER alegre.

Tentaram retirar as MINHAS EMOÇÕES e em troca colocar emoções alheias.

 

E, por algum momento, SENTI.

Senti que à minha idade,

 a minha cor, 

o meu corpo, ERAM ERRADOS.

 

E a culpa por SER QUEM EU SOU 

chegou rasgando profundo e caindo em forma de lágrimas.

CAÍRAM TÃO PROFUNDAS AS LÁGRIMAS, até que a própria culpa caiu.

Foi como se as lágrimas, de tantas dores, lavassem aquele sentimento que me cortava por dentro. 

 

Acordei a tempo de saber que aquela dor, nunca foi minha. 

Mas, durante anos carreguei esse fardo que não era meu. Pois, sempre fui livre!


Culpa por não casar,

Culpa por não gerar,

Culpa por não ter o cabelo liso,

Culpa por não ter o corpo perfeito,

Culpa por não aceitar que me tratem de qualquer jeito,

Culpa por não saber se gosto só de homens,

Culpa por envelhecer,

Culpa...

Culpa...

Culpa...

Seu antídoto, o autoconhecimento, para separar aquilo que não pertence a mim. 



 

  Poesia autoral de @thais.alessandra_ (Thaís Alessandra)  

                        CULPA (2022) - Publicada na Coletânea O LIVRO DAS MARIAS IV: FEMININO VESTIDO DE FÉ.

Não divulgue sem mencionar os créditos! 
Sujeito as penas da Lei 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais) 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Lançamento do livro: AIYRA E O RIO


LIVRO: Aiyra e o Rio
AUTORA: Thaís Alessandra (@thais.alessandra_)

Ilustrações de Priscyla Abreu
Editora: Revista África e Africanidades

PEQUENAS SENSAÇÕES DE CADA CAPÍTULO 📖
SINOPSE DO LIVRO📖

"Aiyra e o Rio, um conto de narrativa infantojuvenil, destinado a reflexões para a família, inspirado em uma palestra que pude presenciar em 2019, na 14ª CINEOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto) que aconteceu na cidade de Ouro Preto/MG, com a temática direcionada à territorialidade e às tradições orais, na qual uma historiadora e mulher indígena relatava que as mulheres indígenas no Brasil também são afro-indígenas e não possuem somente cabelos lisos como expõem os livros de história, porque os indígenas brasileiros da atualidade também têm cabelos crespos e pele preta.

Baseado em uma história de ficção e alguns elementos da realidade, o conto Aiyra e o Rio traz consigo um meio de dar visibilidade aos povos originários. E, além da inspiração mencionada anteriormente, por meio de pesquisas foram utilizados nomes reais para as personagens indígenas, que na narrativa estão localizadas no estado do Amazonas, mas o Rio Uaçá realmente existe e fica situado no norte do estado do Amapá, e a nação indígena Zo'é também existe e fica no norte do Pará. Além disso, os ritos apresentados em cada capítulo de Aiyra e o Rio, foram pesquisados em fontes científicas e aleatoriamente inseridos nessa obra, sem a pretensão de assertividade em relação aos costumes de “Zo’é”, porque a maioria das histórias contadas nessa obra sobre os costumes desses povos são fictícias na intenção apenas de trazer maior visibilidade aos povos originários , demonstrar respeito a essa cultura e no intuito de “acordar o leitor, desde cedo", para a importância dessa causa. Já a Oração ao Espírito do Fogo (Para livrar o Xamã das influências negativas) está disponível em vários sites da internet.

Dividido em dois capítulos: “O Silêncio Barulhento de Uaçá” e “A Maratona do Tempo”, Aiyra e o Rio é contado de forma feminista e decolonial, ou seja, na perspectiva da própria protagonista e personagem afro-indígena Aiyra, que conta a sua própria história e se apropria dela do início ao fim. Se apropria apesar de toda a influência e da tecnologia do “homem branco” que chegou até nós, desde a época dos colonizadores que invadiram o Brasil com a chegada das grandes navegações.

O primeiro capítulo, “O Silêncio Barulhento de Uaçá”, é marcado pela amizade entre a Aiyra e o rio Uaçá, quando ela é ensinada a ouvir o silêncio desse rio pelo seu pai, grande pescador indígena, que disse: “O silêncio é muito barulhento, aprenda a ouvi-lo”. E, a partir daí, sempre que possível, Aiyra pedia ao seu pai para levá-la em suas pescarias só para escutar o silêncio de Uaçá. Era a brincadeira preferida dela desde os cinco anos de idade quando ela aprendeu a escutar o silêncio através desse rio e, desde então, se tornou a melhor amiga de Uaçá. Eram tão íntimos que só de vê-lo ela sentia se ele estava bravo, manso ou arredio.

Ainda no primeiro capítulo: Aiyra aprende que todos nós somos parte da natureza, e que ela é a nossa amiga; aprendeu também sobre os costumes das mulheres da sua nação indígena Zo’é, sobre a sabedoria ancestral e os ensinamentos do Cacique Ajuricaba, homem mais velho e por isso o mais respeitado da sua nação.
Aiyra também teve que aprender a lidar com algumas decepções e com uma dor até então desconhecida, o racismo estrutural, que aos oito anos de idade roubou um pedaço de sua infância; uma vez que na vida teremos uma única oportunidade para sermos crianças, e, como adultos, teremos o resto da nossa existência. Além disso, o racismo que ela sofreu também abriu uma grande ferida em seu
Coração. Isso a fez questionar: - “por que não posso ser quem eu sou neste mundo?”

Após essa sua longa reflexão, ela também fez mais um grande amigo, o Arthur, que compartilha a sua maior dor com ela: a discriminação que ele e a sua família sofrem por terem uma mãe com diagnóstico bipolar. Segundo o Arthur, eles nem sequer eram convidados para as festas que aconteciam entre os seus familiares mais próximos por medo do surto. E, ao ouvir aquilo, Aiyra acolhe o amigo e diz que ser bipolar é só um detalhe, pois a mãe dele é incrível, como ele mesmo disse, e que as pessoas deveriam amar uns aos outros, apesar das diferenças, porque feio é o preconceito social que faz ele sofrer bem mais do que o próprio diagnóstico de sua mãe.

No segundo capítulo, “A Maratona do Tempo”, no subcapítulo “O tempo não parava de passar...” O irmão de Aiyra, Cauê, chega ao mundo nas mãos da parteira mais experiente de toda a “Zo’é”, a mesma que colocou a mãe dele, Anahi, neste mundo, Aiyra e todas as mulheres da aldeia, a dona Iracema.
“Quatro anos se passaram...” Aiyra, agora aos doze anos, decide construir uma canoa para si, porque ela só queria se juntar ao seu amigo Uaçá para se aventurar. Será que era apenas uma rebeldia de adolescente? As pessoas se perguntavam. O que será que aconteceu depois disso?

Leia essa história até o final e descubra, você irá se surpreender!

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THAÍS ALESSANDRA
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